História oral e memória(s) das práticas e hábitos de consumo e receção noticiosa e da experiência das notícias em Portugal a partir dos testemunhos dos cidadãos – a parte que falta para uma história do jornalismo em Portugal
1 de fevereiro de 2025 - 31 de julho de 2026

Sobre o Projeto


O projeto "Para uma história do jornalismo em Portugal", liderado pelo Investigador Responsável deste projeto, Prof. Doutor Jorge Pedro Sousa, produziu, pela primeira vez, histórias gerais e segmentadas do jornalismo em Portugal, centradas nos produtores de notícias, nas mensagens e nos media, considerando o contexto cultural, legal, político e económico. Não se debruçou sobre a experiência histórica da receção das notícias. Este novo projeto pretende colmatar essa lacuna, respondendo à questão "que práticas e experiências de consumo os portugueses tiveram de notícias desde 1930 e como reagiram a elas e que fatores afetaram a memória das notícias e as práticas com as notícias?". Através da história oral, portugueses de diferentes idades, com diferentes percursos de vida e condições contextuais de receção, contam as suas experiências com as notícias divulgadas pelos meios jornalísticos ao longo dos tempos. Parte-se do pressuposto de que os públicos fazem parte do processo jornalístico e o influenciam e que, por isso, são parte integrante de uma história do jornalismo português.

A hipótese a testar é a seguinte: pessoas de diferentes idades, características, histórias de vida e contextos de receção de notícias ao longo do tempo vivenciaram e consumiram notícias também de formas diferentes.

Este é um projeto inovador e pioneiro em Portugal, embora reconheçamos semelhanças com um estudo sobre o consumo mediático das mulheres operárias da Covilhã (centro de Portugal) durante o Estado Novo (1933-1974). Mesmo a nível internacional, não foram encontrados estudos semelhantes especificamente sobre história oral, embora existam estudos sobre memória e audiências e receção de notícias, quase sempre realizados sem a perspetiva diacrónica e histórica que pretendemos dar à investigação e com abordagens diferentes da história oral. 

A metodologia do projeto baseia-se na história oral, uma opção democrática e polifónica de fazer história social e recuperar memórias, uma vez que, a partir de entrevistas a uma diversidade de pessoas, registadas por meios eletrónicos ou outros (documentos de origem histórica), se consideram as suas histórias de vida, origens culturais e memórias. Embora a variável determinante na seleção dos entrevistados seja a idade, de modo a respeitar o princípio da máxima diversidade dos casos amostrados, consideraremos também as variáveis de género, estratos e grupos sociais (incluindo minorias), literacia (incluindo analfabetos) e locais de residência (em todo o país), entre outras.

A história oral pressupõe uma abordagem metodológica específica em que o investigador obtém testemunhos memorializados, valorizados em si mesmos e não apenas como dispositivos de recolha de dados, através de entrevistas, gravadas e disponibilizadas publicamente, possibilitando não só a sua utilização por outros investigadores, mas também a sua consulta pública. Esses depoimentos gravados em vídeo são considerados fontes históricas.

Este projeto propõe, especificamente, a realização de entrevistas semiestruturadas, com base num guião pré-estabelecido, a cidadãos portugueses maiores de idade, residentes em Portugal, com o objetivo de recuperar e registar os seus depoimentos e analisar, comparar e divulgar as suas memórias enquanto consumidores de notícias, para posteriormente elaborar uma história oral, devidamente contextualizada, das práticas, hábitos e experiências da receção de notícias no país, ou seja, uma história oral da(s) audiência(s) de notícias em Portugal.

As entrevistas serão registadas em vídeo. Estes registos funcionarão como documentos-fonte para a elaboração da história oral das práticas e experiências de consumo e receção de notícias em Portugal contadas do ponto de vista de uma amostra de portugueses. As entrevistas serão disponibilizadas no YouTube, que funcionará como um instrumento de valorização e registo das memórias e testemunhos pessoais dos entrevistados e das suas histórias de vida enquanto consumidores de notícias.

Objetivos


Para além do objetivo geral de contribuir para a construção de uma história mais completa do jornalismo em Portugal, um campo estruturante mas negligenciado do conhecimento comunicacional, os objetivos específicos do projeto são:

1. Registar, analisar e comparar, diacronicamente, os testemunhos de portugueses de diferentes idades e de diferentes gerações sobre a sua experiência de acesso e consumo de notícias em Portugal ao longo do tempo, visando a construção de uma história oral da experiência cidadã de receção de notícias que, tendo em conta as mudanças nos contextos de receção, será organizada segundo períodos históricos determinados pelos media sucessivamente introduzidos, observando os pontos em que as memórias são coerentemente semelhantes e os pontos em que divergem;

2. Compreender como as pessoas mais velhas viviam as notícias num mundo anterior aos meios eletrónicos;

3. Detalhar como a rádio, a televisão, a Web (incluindo as redes sociais) e os dispositivos móveis influenciaram as experiências que os portugueses tiveram das notícias, considerando o acesso diferenciado aos meios jornalísticos ao longo do tempo;

4. Verificar se diferentes histórias de vida e contextos de receção determinaram diferentes experiências de consumo de notícias e se estas influenciaram a forma como pessoas de diferentes idades vivenciaram e encararam acontecimentos históricos importantes;

5. Observar como os coevos encararam e reagiram às notícias durante o “Estado Novo” e a Revolução, nomeadamente se identificaram a desinformação e a propaganda e se tiveram consciência da censura e dos seus efeitos;

6. Comparar as memórias dos portugueses de diferentes idades sobre a sua experiência das notícias com as histórias gerais e segmentadas do jornalismo português produzidas no âmbito do projeto “Para uma história do jornalismo em Portugal”, verificando os pontos de confluência e de divergência;

7. Comparar como os portugueses de diferentes idades consomem notícias hoje, investigando os efeitos das redes sociais e a sensibilidade à desinformação e determinando em que medida histórias de vida particulares, a evolução dos contextos de receção e os constrangimentos socioculturais e económicos, entendidos diacrónica e sincronicamente, determinam os hábitos de consumo de notícias;

8. Criar um canal no YouTube para repositório de acesso livre, em vídeo, dos testemunhos que o projeto registará, úteis para novas investigações em diferentes áreas.